
Aquela palavra
Eu tinha uma raiva dessa palavra “pródromos” . O meu marido, Dênis, adora palavras raras, e insistia em repetir por ai, pródromos, você pode ter pródromos. E eu ficava puta. Eu tinha a certeza que meu parto seria bem delimitado, sem alarmes falsos, e achava que o Dênis estava me atrapalhando com esses comentários só pra poder usar a bendita palavra “Pródromos”. Também, quando é que o cara ia poder usá-la novamente na vida? Era agora ou nunca. Eu, simplesmente me recusava a pensar que essa palavra existia.


No domingo à noite, véspera da data provável, a minha filha Laura (de 11) e o Dênis pediram pizza. Eu nem provei, senti nojo. Comi shitake com alface. Laura foi dormir, Dênis subiu pro escritório e eu fiquei à toa. Então comecei varrer, limpar, arrumar, arrumar gavetas, varrer de novo.
E de repente, pum! Contração bem dolorida. Uhhh, deve ser uma Braxton Hicks.
Dez minutos depois, uhhh, mais uma. Quinze minutos depois, mais uma. Nossa, será? Obvio que é, tem um padrão, comecei anotar, não falei nada pro Dênis. Preferi anotar por uma hora seguida, para que ele não me falasse: isso é alarme falso. Subi as escadas e quando cheguei em cima, tive mais uma. Falei pra ele, acho que é agora.
Quanta inocência. Mal sabia eu, que estava começando nesse momento viver a resignificação da palavra pródromos, a vivência da palavra Pródromos. O mergulho implacável e fundo no mundo dos pródromos.
A Doula e os Sabiás

Liguei para a Dra. Andréa, quando as contrações estavam de 3 em 3 minutos. Ela falou, parece que você está em trabalho de parto. Ela ligou para Márcia. Senti uma profunda emoção, a minha filha ia nascer nas próximas horas.
Chamei Camila, minha amiga querida, um luxo de doula, a verdadeira expressão do que uma doula deve ser. Uma amiga próxima, que sabe me confortar, me massagear, agüentar meus gritos, alguém que já passou por isso. Camila passou a semana toda indo para casa de madrugada, e ficávamos juntas em silêncio, até o amanhecer. Uma dessas manhãs, eu já cansada, chorando de dor, a Camila olha pra minha cara, com o indicador em alto e os olhos bem abertos, Escuta o canto do Sabiá, não existe nenhum canto igual ao outro.
A mulher do abraço
A cada noite as contrações ficavam mais intensas e achávamos que desta vez ia rolar, mas quando amanhecia, a coisa ficava frouxa. Eu chorava, e tentava dormir, mas não ficava frouxa o suficiente para relaxar totalmente. As contrações vinham sem nenhuma ordem. Eu, que sou bem faminta, perdi o apetite. Não queria comer carnes, nem arroz ou feijão, apenas algumas frutas, suco. Na verdade o Dênis me obrigou comer a semana toda.
Entrei em desespero várias vezes, tive mil dúvidas. Cheguei pensar em situações muito surrealistas, como ficar com a bebê na barriga para sempre, e dai pra pior. A questão da incerteza, da espera junto com a dor estavam me deixando muito confusa. Aquela semana estava fora do tempo, era uma não-semana, e eu me sentia perambulando por um não-espaço, um buraco negro da maternidade. Precisava de apoio profissional, e esse apoio tinha nome: Márcia Koiffman.

A Márcia passou aqui em casa algumas vezes, não consigo lembrar quantas, mas sempre que veio colocou a casa em ordem. Abria seus estojos cheios de bolinhas, de ervas e me dava na boca, como uma mãe da para um filho. Fiquei tomando homeopatia para regular o ritmo das contrações. Deu certo, elas ficaram mais intensas e freqüentes. Márcia fazia uma massagem em mim, usando um óleo de arnica, maravilhoso. A massagem certa na hora das contrações pode diminuir a dor quase completamente. As vezes é um toque muito sutil, uma caricia tão leve quanto um pano de seda.
Márcia estava o tempo todo disposta a proporcionar conforto, segurança. Eu jamais vou me esquecer, nem mesmo que eu queira, do abraço que ela me deu na hora em que o anestesista estava enfiando aquela agulha nas minhas costas, e eu no meio de uma contração infinita. Fica essa imagem fotografada em minha memória, com a legenda: “apoio entre seres humanos”.
O Hospital
Finalmente, na sexta feira no fim de tarde, a minha bolsa rompeu. Liguei para Andréa, que ficou feliz e falou que agora seria rapidinho, já que eu tinha ficado vários dias com contrações, a dilatação seria fácil. E de que cor é o líquido? Perguntou ela, eu falei que parecia caldo de cana... Hmmmmm, isso é mecônio. Acho que vamos ter que ir pro hospital.
Que desespero, se tem uma coisa que eu não queria era ir pro hospital, muito menos no fim de tarde de uma sexta feira. Fingi que não ouvi. As contrações dispararam loucamente, em menos de duas horas elas estavam de 3 em 3 minutos, e na terceira hora de 2 em 2. Márcia Chegou, a banheira de parto estava montada na sala, uma hora depois chegou Andréa, que fez o toque e me deu a maravilhosa noticia de que eu estava com ½ centímetro de dilatação. Comecei entrar em pânico. Como era possível passar tantos dias tendo contrações e não dilatar nada? O que era que Jesus estava querendo de mim? Ao parecer eu estava com uma espécie de pelezinha em volta do colo do meu útero. Andréa começou entrar em ação. Ela simplesmente tirou essa pele com os dedos, e em questão de segundos “me dilatou” até 3 cm. Adorei tanta eficiência. Ficamos felizes, agora vai, agora dilata rapidinho. Eba! Só que vamos pro hospital.
Que momento chato, fazer malas numa hora dessas, que saco. O Dênis e a Márcia desmontando a banheira, rolou até um jantar, mas eu não quis nem saber. A gente estava dando tempo para diminuir o trânsito de sexta à noite. Conseguimos ficar nessas até meia noite. Eu já em estado alucinatório, obviamente, não conseguia mais falar coisa com coisa. Finalmente saímos. Eu ia na parte de trás do carro, e a cada buraquinho na marginal era um grito sem pudores, gritei com vontade mesmo. No sinal vermelho o povo com som alto, indo pra balada, e nós indo pra nossa. Chegamos na Matrix, o hospital Nossa Sra. de Lourdes. Lá as coisas acontecem com outra lógica, quando apareceu o mocinho querendo me enfiar na cadeira de rodas, gritei alguma coisa que não lembro, mas que foi o suficiente para que ele percebesse que não ia rolar messssmo. Palavrões a essa altura já estavam dominando o meu léxico. A minha filha Laura queria morrer de vergonha. Chegamos no quarto. A equipe toda se mobilizou para encher a banheira com água quente, enquanto isso eu fiquei no chuveirinho.

A dor estava forte, do tipo bem forte. Mas tudo isso dava pra agüentar, porque em breve a minha filha ia nascer. Fizemos a cardiotoco. Tudo certo. Lá pela 1 da manhã fizemos toque, eu tinha dilatado ½ cm, nas últimas 4 horas. Márcia e Andréa cruzaram olhares do tipo, “ixi”, ou será que eu estava um pouco paranóica, ou ambas coisas. Eu estava tensa, sim, 6 dias de contrações, dilatação muy lenta, muita dor. Entrei na banheira, uma banheira maravilhosa, mas eu já estava bem nervosa, eu sou estressada mesmo. Tomei a bombinha de plasil-buscopan e dei uma relaxada, entre as contrações conseguia dormir e sonhar. Uma hora depois fomos ver como estava a dilatação. O progresso era lento, fiz as contas e indo nesse ritmo a minha filha ia nascer 24 horas depois. Então eu falei, chega, che-gaaaa. O parto natural é lindo, mas eu to achando horrível. Chama o anestesista agora. Pessoal tentou me persuadir, que a banheira é relaxante, que a homeopatia e tal. Fiquei irredutível, pedi o apoio do Dênis, e ele falou que sim, claro. A Márcia falou para mim que a gente sabe o limite quando não está bom. E para mim já não estava bom. Eu queria desmaiar de cansaço, mas não tinha força. Eu queria chorar, mas não saiam lágrimas.

Que me matem as amigas do parto, o parto do principio e todo tipo de organização em prol do parto sem anestesia, mas eu preciso ser sincera: na hora que bateu a anestesia, eu me senti o ser mais feliz do mundo, eu dava risada, gargalhava, queria abraçar o anestesista, Dênis falou que praticamente dei vexame. Mas agora quero dizer, sem brincadeira, que depois de várias semanas do parto e de sentir culpa por não ter agüentado mais a dor, eu compreendi qual que é do parto natural. Eu acho que o lance não é uma receita, com uma lista de itens a cumprir para atingir a elevação do parto natural. O grande lance é a consciência. Eu acho que mais do que parto natural devíamos chamar de parto consciente, isto quer dizer, que eu, mulher grávida, decidi o caminho que queria percorrer para o nascimento da minha filha, eu tomei decisões e fui me adaptando aos fatos que não havia planejado, eu fiquei com uma equipe que me permitiu tomar decisões e me apoiou nelas. Ninguém decidiu que eu não agüentava mais de cansaço, EU decidi que não agüentava mais de cansaço.
A obstetra agilizada
Depois de um bem merecido cochilo de 2 horas, com uma dose bem leve de oxitocina entrando na minha veia, eu cansei de ficar deitada e decidi que essa menina tinha que nascer logo. Levantei, fiquei de quatro, dancei, todos dançamos juntos, balancei as cadeiras, andei pra lá e pra cá, e no meio do cha-cha-cha senti o cabeção descer, de repente. Que delicia!!!
Fomos pra cadeirinha de parto, e o efeito da anestesia já tinha passado. Comecei fazer força, o processo estava indo muito bem, a cabeça descendo a cada contração. Dra. Andréa me animando com aquela voz aguda dela, Muito bem Valentina, é isso mesmo!! Já vai nascer!!!

Bom, só pra deixar bem claro que definitivamente não foi moleza, eu fiquei no expulsivo por 3 horas, em todo tipo de posição que você possa imaginar. A cabeça começava sair, e voltava. Eu estava me esgoelando, tirando forças não sei de onde mas a minha filha não saia. Eu não conseguia entender como era possível fazer tanto esforço e mesmo assim não nascer. Todos no quarto me ajudando, me dando forças, e eu falava: eu só quero ver a cara da minha filha.
Dra. Andréa fez um toque, e eu vi ela trocando idéia com a Márcia em voz baixa. Elas vieram falar comigo, que o batimento do coração da bebê estava começando diminuir, que eu tenho cesárea previa, 24 horas de bolsa rota, que ela queria me ajudar com um fórceps.
A verdade é que nesse toque, elas descobriram (mas não me falaram na hora) que em algum momento da minha vida eu quebrei o cóccix e que ele tinha ficado rígido, do jeito errado, por isso a cabeça não saia.
O urso que carrega crianças

No meio do expulsivo vejo a cara de um homem sorridente, olhando pra mim placidamente, eu gritando e me contorcendo, e ele me olhando com aquele sorriso. Não sei se ele estava consciente disso, mas na hora em que eu comecei pensar que aquilo tudo estava acontecendo só comigo, e que nenhuma mulher no mundo passou por algo assim, e que o mundo é muito injusto comigo, etc, ver pela primeira vez na minha vida o rosto do Cacá me fez sentir que estava tudo bem. Eu pensei, Com este homem-urso dentro do quarto nada de ruim vai me acontecer.
Eu não vou explicar aqui com detalhes o que o Cacá fez com a Soledad na hora que ela nasceu, acho que cada família devia viver essa experiência, se for possível. Mas houve um respeito profundo, uma luz baixa, um cordão cortado pelo pai na hora certa, um mergulho em água morna, muito devagar, tudo no balanço.
Instante precioso, único. Me sinto absolutamente feliz de termos proporcionado esse momento para minha filha, uma entrada no mundo cheia de amor, de sorrisos, de suavidade, leite e calor.












